Marcelo Leite
No ano 2000, participei da edição de uma série de cadernos especiais da Folha sobre o Futuro, um deles enfocando água, energia e comida. Leonardo Cruz, hoje na Ilustrada, foi incumbido de uma tarefa ingrata: arranjar um jeito de fazer as contas sobre quantos planetas seriam necessários para que todos os habitantes da Terra tivessem o nível de vida dos países ricos - ou seja, consumir água, energia e comida com a mesma voracidade dos pesos pesados norte-americanos.
Santa ingenuidade. A conta certa não precisa ser distributiva, nem sonhar com um reino sem necessidades. O planeta Terra, aparentemente, entrou no saldo a descoberto já com a população de 6,5 bilhões de hoje, mesmo, com aí 1/4 ou 1/3 de gente MUITO pobre. O cálculo foi feito pela WWF e resumido no Índice Pegada Ecológica (que soa muito melhor em inglês, não me perguntem por quê: Ecological Footprint).

Como explicou Cristina Amorim no Estadão, trata-se de uma metáfora para a superfície de planeta necessária para sustentar cada pessoa viva. Para a ONG, estamos torrando 25% mais recursos e transformando-os em dejetos do que o sistema Terra é capaz de reconverter em recursos.
Confira na publicação Living Planet Report 2006. Diz o relatório:
A humanidade não está mais vivendo dos rendimentos da natureza, mas dilapidando seu capital. Essa pressão crescente sobre ecossistemas causa a destruição ou degradação de hábitats e a perda permanente de produtividade, o que ameaça tanto a biodiversidade quanto o bem-estar humano.
O WWF também publica regularmente um Índice Planeta Vivo, expressão numérica do acompanhamento sistemático da saúde de populações de 1.313 espécies de vertebrados (peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos), encarados como sensores de qualidade ambiental. Se a saúde delas vai mal, é porque a biosfera mesmo não estaria se sentindo muito bem. Ora, o índice decresceu 30% desde 1970. É inacreditável que não haja mais gente à beira de um ataque de nervos com isso.
Se você quiser ler um comentário economicamente sensato e nada "ecochato" (os inventores da boutade ainda vão se arrepender dela), experimente "Biodiversidade em baixa", de José Eli da Veiga, no Estadão. Se quiser presenciar um ataque de nervos em formato editorial, vá direto para a entrevista de James Lovelock à revista Veja (aviso, porém, que ambos os sites exigem senha de assinante). Agora, se quiser calcular sua própria pegada, tente aqui.
Extraído do site: Ciência em Dia
MARCELO LEITE é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, autor do livro paradidático "Pantanal, Mosaico das Águas" (Editora Ática) e responsável pelo blog Ciência em Dia (www.cienciaemdia.zip.net). E-mail: cienciaemdia@uol.com.br